Vem aí fevereiro e vamos vibrar comovidos com a bravura dos nossos campeões no Europeu de Ciclismo de Pista. Portugal está na elite da modalidade, mas a que custo?
O orgulho imenso em atletas como Iuri Leitão e Rui Costa esconde um desalento profundo: Portugal depende de milagres individuais para tapar a vergonha de um sistema sem recursos, onde a falta de investimento ameaça deixar a próxima geração a pedalar no vazio.
Europeu de ciclismo de pista: Portugal entre favoritos
O Campeonato da Europa de Ciclismo de Pista de Elite realiza-se em Konya, na Turquia, de 1 a 5 de fevereiro.
A competição marca o início do calendário internacional de 2026. Portugal entra em pista para defender o estatuto de potência europeia consolidado no ciclo anterior.
Os prováveis protagonistas
A seleção nacional deve apresentar o núcleo duro habitual, com atletas que defendem títulos e posições no ranking UCI.
| Atleta | Especialidade | Europeu 2025 |
| Iúri Leitão | Scratch / Omnium | Ouro (Scratch e Pontos) |
| Rui Oliveira | Madison / Eliminação | Prata (Eliminação), Bronze (Madison) |
| Ivo Oliveira | Perseguição / Madison | Prata (Perseguição), Bronze (Madison) |
| Maria Martins | Omnium / Scratch | Bronze (Scratch) |
Quatro árvores a tapar o deserto
Ou seja, temos aqui quatro atletas de elite que funcionam como um escudo. As medalhas que eles conquistam camuflam a ausência de um sistema profissional autónomo e mascaram a fragilidade da base.
Na verdade, Portugal nem sequer possui uma equipa profissional de pista. A Federação gere a logística, mas não paga os salários.
Como tal, a Seleção Portuguesa de Ciclismo vive da disponibilidade das equipas que pagam aos nossos atletas de elite.
Quem sustenta Iúri Leitão e os irmãos Oliveira são a Caja Rural e a UAE Emirates. Se esta equipa precisar dos atletas e vetar a presença deles na Seleção Nacional, Portugal deixa de ser competitivo.
E nem precisamos de ir muito longe! Rui e Ivo Oliveira falharam o Mundial de 2025 por compromissos de equipa e gestão de esforço.
A floresta seca: o abismo da formação
O Campeonato da Europa de Sub-23, realizado em Anadia em julho de 2025, expôs a realidade nua. Sem este ‘quarteto fantástico’, Portugal desce do pódio para o meio da tabela.
| Escalão | Prova (em 2025) | Resultado Sub-23 | Resultado Elite (comparação) |
| Sub-23 | Madison | 9.º Lugar (J. Martins/G. Baptista) | Medalha de bronze |
| Sub-23 | Eliminação | 8.º Lugar (João Martins) | Medalha de prata |
Logo após a prova de Anadia, o selecionador Gabriel Mendes admitiu que existem “diferenças significativas de rendimento” entre os jovens portugueses e as potências como Itália ou Grã-Bretanha.
Colapso no feminino
Pior está a situação no setor feminino. É crítica, pois depende exclusivamente dos pontos e da saúde de Maria Martins.
- Sem plano B: Não existem atletas com rodagem internacional para substituir ‘Tata’ Martins;
- A prova: Portugal falhou a presença feminina no Mundial de 2025 por não ter pontos suficientes no ranking UCI;
- O risco: Uma lesão ou uma época menos boa de uma única atleta compromete todo o ciclo olímpico nacional.
O último aviso: futuro do ciclismo em risco
Konya será um teste de fogo. Mas o verdadeiro desafio não é na pista turca. É nos gabinetes em Lisboa.
O modelo atual está esgotado. O ciclismo de pista não pode depender eternamente da boa vontade de equipas estrangeiras. A carolice não ganha medalhas para sempre.
Até porque a infraestrutura existe. O Velódromo de Anadia é um dos poucos Centros Satélite Mundiais da UCI na Europa.
Temos o betão, mas falta o motor. Falta a equipa profissional dedicada. Falta o orçamento para rodar os juniores nas Taças das Nações.
Se nada mudar, o destino é claro. Quando Iúri Leitão e os irmãos Oliveira pararem, Portugal desaparece do mapa.
Por isso, as medalhas que devemos festejar em fevereiro não podem ser uma desculpa. Têm de ser um ultimato.
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